quinta-feira, abril 20, 2006

Há uma sempre uma flor vermelha e selvagem




Há uma flor vermelha e selvagem no canteiro da vizinha em frente. Nasceu ali sem pedir licença. Se a arrancarem não durará o suficiente para enfeitar uma sala...
Morrerá ao segundo ou terceiro suspiro.

A dona do canteiro não a arrancou... deixou-a ali porque é das suas flores preferidas e lhe faz lembrar o seu vestido velho,
O vermelho.
O que levou a uma festa quando conheceu o homem que amou a vida toda, todo o tempo em que foi mulher,
Ah, dezasseis anos.

A mulher do vestido tem o batom esborratado e chorou a noite toda.

O vestido está manchado de tristeza e
Espaço vazio... o vermelho ficou uma sem cor qualquer que não vem em nenhum catálogo.

A bicicleta dele já não está parada por baixo da janela, nem a janela está aberta como estava sempre... para se ouvirem as risadas do lado de fora, testemunhas daquele romance...

A vida toda amou ela este homem,
gostou ela destas flores que só nascem no campo,
E nesta cidade há pelo menos uma, ali... parece-se com a felicidade. Parece-se com o atrevimento. Crescer assim num lugar qualquer, na rua, sem querer saber!
Ah!
O vento empurra as saias dela para cima e para baixo mas ela não se envergonha. Todos a admiram...
Aquele corpo...
o vestido dela romper-se-á mais depressa do que se pensa...
Durará pouco, menos do que o amor da outra.

Já não há nada ali, a janela está fechada pelo menos há três dias e diz-se,
fala-se, em boca alheia que ele nunca mais virá...
as pessoas sabem, sei lá como... ele era de outra qualquer...

O nome dela está a apagar-se na memória dele, e a flor do canteiro murcha a cada pessoa que passa por ela, admirando-a cada vez menos;
É uma simples flor selvagem e está ali por engano, não pertence e este lugar;

Ela sabe...
sabe que se chora agora, mas depois, mais tarde, há sempre uma outra flor que cresce, com um vestido vermelho... há sempre mais um vestido, vermelho novo,
E homens, outros, noutro lugar qualquer.


18/05/2004

4 comentários:

Céu Estrelado disse...

Muito bonito, sim senhora!
Li duas vezes e achei muito bonito tal qual a papoila...muito bonita, fragil e de pouca duração!
Beijinhos :)

rutebruno disse...

lindo texto!
como a papoila está bem caracterizada e a vida , então!
parabe´sn!
nunca aqui tinha vindo, mas gostei do que vi e li!
voltarei!
bjs

Luísa disse...

muito bonito!!

Soph disse...

Este texto é muito bom... fez-me pensar...

;)